Existe um mito na história do Brasil que diz: a expulsão dos holandeses foi prejudicial ao Nordeste, que com eles teríamos ficado muito melhores... Recife fica numa celebração a meu ver, boboca, destes poucos anos em que foi dominada pelos holandeses. Assim, como São Luís fica se vanglorando da origem francesa. Pura Tolice!
O sistema colonial que a Companhia das Índias Ocidentais previu para o Brasil era baseado na mesma linha mestra de Portugal, a cana-de-açúcar em sistema de plantation. Estive em Curação e a ilha não é um país desenvolvido, apesar de linda (como o Nordeste). Indonésia e Suriname são exemplos certeiros de que os holandeses não iriam fazer muita coisa diferente no Nordeste.
Os franceses também não teriam feito por São Luís melhor que os portugueses e o exemplo é ainda mais contundente - o Haiti foi colônia francesa. Nem a colonização Inglesa era garantia alguma, vide a paupérrima Guiana Inglesa. Aí fica a questão: mas por que os Estados Unidos e o Canadá ficaram desenvolvidos? Aquela velha história de colônia de povoamento/exploração vem a tona...
É a máxima! Somos pobres. De quem é a culpa? Claro que é da Europa, que primeiro nos explorou e depois dos EUA, que continuou. Evidente que a culpa não é nossa, a culpa é do Imperalismo, diz o perfeito idiota latino-americano que é livro excelente sobre a questão. (Manual do Perfeito Idiota Latino Americano, Autor: Mendoza, Plinio Apuleyo; Llosa, Alvaro)
Esta análise não resiste a uma comparação desconcertante: em 1817, o PIB do Brasil era igual aos dos Estados Unidos. Aliás, nesta época, os EUA tinham escravidão, pobreza e conflitos vários. Em 1814, a Inglaterra invadiu facilmente os EUA, saqueram Washington e botaram fogo na sede do governo, que precisa ser pintada de branco de tempos em tempos para disfarçar as marcas do incêndio - e é só por isso que é a Casa Branca.
Se saímos do mesmo ponto quando nos tornamos nação, por que a distância é tão grande hoje?Falta de instituições, de estabilidade política, desrespeito a propriedade privada e aos contratos, os golpes, as quarteladas, a opção pela agricultura (Mauá e Delmiro Gouveia foram tratados quase que como criminosos), várias causas, mas vou enumerar algumas que eu acho que também fazem diferença e são pouco faladas:
1-O Brasil demorou demais a acabar com a escravidão e recebeu escravos demais (recebeu quase 55% de todos os escravos que vieram para a América).
2-O Brasil recebeu imigrantes europeus e japoneses de menos, que era mão-de-obra extremamente qualificada e organizada.
3-Estivemos imersos demais na ideologia católica, que não valoriza o trabalho, o lucro e o mérito pessoal, ao contrário dos protestantes de linha presbiteriana (sei que esta tese é batida, vide Max Weber, mas é comprovada na prática, basta olhar a Alemanha e a Itália, unificados na mesma época, com população e área parecidas).
4-Não nos envolvemos o tanto que deveríamos e poderíamos nas duas guerras mundiais, perdemos este bonde. Pode chamar de politicamente incorreto, mas nada melhor que uma guerra para desenvoler a economia.
A Constituição dos EUA, de 1787, estabelecia mandato de quatro anos com direito a reeleição, sem especificar o número possível destas reeleições. George Washington herói nacional(?!?), elegeu-se em 1788 para presidente, em 1792 foi reeleito para mandato até 1796. Em 1796 poderia se candidatar de novo e estava praticamente eleito. A Constituição permitia. Aí pensou bem e disse: "Tá bom, oito anos é um tempo razoável, mais que isso vira monarquia, e foi para se libertar de uma que a gente fez a guerra, é saudável que haja alternância de poder, porque ninguém é iluminado."
Ainda que um governo esteja indo bem, é bom mudar, porque o outro pode trazer nova contribuição e evita que o grupo acabe ficando viciado no Estado. O Poder, na república de verdade, somente se justifica se for transitório. Sábias palavras, acho que talvez a explicação da tal distância BRASIL/EUA esteja por aí. Nestes tempos de 2010 é bom lembrar isto porque, como diz meu pai, para o bom entendedor tiro de meta é pênalti.
Sei que algumas ideias são polêmicas... Mas, gosto de provocar mesmo!
* A autoria do texto é do procurador Federal Alisson do Valle Simeão.